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Poema à mãe

eugenio

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal…

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

(Eugénio de Andrade, In: “Os amantes sem dinheiro”)


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Sorteio (Todos os dias)

todos1

“É quando as pessoas saem que a casa se enche. Porque o silêncio é do tamanho das paredes da casa”.

Amigos leitores, esta semana sortearei um exemplar de um livro que eu gosto muito: “Todos os dias”, de  Jorge Reis-Sá, obra que foi eleita pela revista portuguesa Os Meus Livros um dos melhores romances do ano de 2006.

Para participar, é fácil: basta manifestar o interesse nos comentários deste post. Só vale um comentário por pessoa – mas para aqueles que se tornem seguidores do blog, o comentário valerá três chances no sorteio.

Boa sorte! E boa leitura!