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Metas literárias

Em 2014 estabeleci, pela primeira vez, uma meta literária pessoal. Até então, embora lesse muito, fazia-o de maneira desordenada, aleatória. Às vezes me perguntavam – sem que pudesse responder – quantos livros eu lia por semana, por mês ou por ano. Eu realmente não tinha ideia.

Assim é que decidi promover a contabilidade. A princípio, julguei razoável ler um livro por semana, a fim de manter uma média anual de um livro por semana. Todavia, havendo alcançado essa marca em meados de outubro, decidi reajustar a meta para 60 livros, com o objetivo de somar 5 livros por mês.

Embora o ano tenha sido muito corrido (processo de atualização e ampliação do meu livro, eleições, nascimento da filha), com alguma tranquilidade finalizei no ano passado a leitura de 66 obras. São elas:

1. “A paz dura pouco” (Chinua Achebe / Companhia das Letras).

2. “E se Obama fosse africano?” (Mia Couto / Companhia das Letras).

3. “Ithaca Road” (Paulo Scott / Companhia das Letras).

4. “Antes das primeiras estórias” (João Guimarães Rosa / Nova Fronteira).

5. “A borra do café” (Mario Benedetti / Alfaguara).

6. “Reprodução” (Bernardo Carvalho / Companhia das Letras).

7. “Dinheiro queimado” (Ricardo Piglia / Companhia das Letras).

8.  “O fundamentalista relutante” (Mohsin Hamid / Alfaguara).

9. “Com vista para o Kremlin (Vivian Oswald / Editora Globo).

10. “Melhor seria nunca ter existido” (Daniel Pellizzari / Livros do Mal 2.0)

11. “Abraço” (José Luís Peixoto / Quetzal).

12. “Después del terremoto” (Haruki Murakami / Tusquets).

13. “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” (João Paulo Cuenca / Companhia das Letras).

14. “1Q84 – Livro 2” (Haruki Murakami / Alfaguara).

15. “1Q84 – Livro 3” (Haruki Murakami / Alfaguara).

16. “Rugby” (Manuel Soriano / Alfaguara).

17. “La luz difícil” (Tomás González / Alfaguara).

18. “Severina” (Rodrigo Rey Rosa / Alfaguara).

19. “Siempre será después” (Marisa Silva Schultze / Alfaguara).

20. “Homens e engrenagens” (Ernesto Sábato / Editora Papirus).

21. “O apocalipse dos trabalhadores” (Valter Hugo Mãe / Cosac Naify).

22. “El delírio de Turing” (Edmundo Paz Soldán / Alfaguara).

23. “Lumbre” (Hernán Ronsino / Eterna Cadencia).

24. “A desumanização” (Valter Hugo Mãe / Cosac Naify).

25. “Formas de voltar para casa” (Alejandro Zambra / Cosac Naify).

26. “O pêndulo de Euclides” (Aleilton Fonseca / Bertrand Brasil).

27. “Eu não vim fazer um discurso” (Gabriel García Márquez / Record).

28. “El campito” (Juan Diego Incardona / Interzona).

29. “Os desvalidos” (Francisco J. C. Dantas / Alfaguara).

30. “El crimen del siglo” (Miguel Torres / Alfaguara).

31. “O diário de um escrutinador” (Italo Calvino / Cia das Letras).

32. “Operación masacre” (Rodolfo Walsh / De la Flor).

33. “No habrá más penas ni olvido” (Osvaldo Soriano / Seix Barral).

34. “A arte da ressurreição” (Hernán Rivera Letelier / Alfaguara).

35. “Mongólia” (Bernardo Carvalho / Cia das Letras).

36. “Cuarteles de invierno” (Osvaldo Soriano / Seix Barral).

37. “Ser feliz era esto” (Eduardo Sacheri / Alfaguara).

38. “El síndrome de Rasputín” (Ricardo Romero / Negro Absoluto).

39. “Jesus Cristo bebia cerveja” (Afonso Cruz / Alfaguara).

40. “Variaciones de Koch” (Manuel Soriano / Alfaguara).

41. “La descomposición” (Hernán Ronsino / Eterna Cadencia).

42. “Glaxo” (Hernán Ronsino / Eterna Cadencia).

43.  “Uma escuridão bonita” (Ondjaki / Pallas).

44. “Canción de la desconfianza” (Damián Selci  / Eterna Cadencia).

45. “O fantasista” (Hernán Rivera Letelier).

46. “Madrugada suja” (Miguel Sousa Tavares).

47. “A contadora de filmes” (Hernán Riveira Letelier).

48. “La sed” (Hernán Arias).

49. “História do pranto” (Alan Pauls / CosacNaify).

50. “A esquerda que não teme dizer o seu nome” (Vladimir Safatle / Publifolha).

51. “Puro fútbol” (Roberto Fontanarrosa / Planeta).

52. “As duas guerras de Vlado Herzog” (Audálio Dantas).

53. “Hot sur” (Laura Restrepo).

54. “En verdade quiero verte, pero llevará mucho tiempo” (Luis Mey).

55. “Um tal Lucas” (Julio Cortázar).

56. “El viento que arrasa” (Selva Almada).

57. “O lugar sem limites” (José Donoso).

58. “Triste, solitario y final” (Osvaldo Soriano).

59. “Mudança” (Yo Man / Cosac Naify).

60. “A rebelião das massas” (José Ortega y Gasset / kindle).

61. “O poder nu” (Bertrand Russel / kindle).

62. “Nós, os do Makulusu” (José Luandino Vieira / kindle).

63. “História do cabelo” (Alan Pauls / Cosac Naify).

64. “O pintor debaixo do lava-loiças” (Afonso Cruz / kindle).

65. “Neruda por Skármeta” (Antonio Skármeta / Record).

66. “Vindima” (Miguel Torga / kindle).

No geral, praticamente não “errei a mão”. Li, de fato, dezenas de grandes obras, algumas das quais não esquecerei jamais (na próxima postagem, falarei um pouco dos 10 livros que mais me agradaram). Dediquei boa parte do ano à literatura hispano-americana, e não me arrependi. Como tem coisa boa saindo em nossos países vizinhos! Além disso, sem surpresa me deliciei com boas obras das literaturas portuguesa e africana. Bons livros brasileiros passaram, também, pelas minhas mãos. O painel nacional me parece bastante animador.

Bom, quanto a 2015, já tenho algumas metas. Quais são?

(a) ler ao menos 70 livros;

(b) começar (e me acostumar) a ler em inglês (tem um Hemingway pela metade na minha estante há vários meses); e

(c) diminuir (!) a fila de livros na minha estante (vou tentar somente comprar 1 livro para cada 2 que tirar da minha lista de espera).

Há metas mais e menos fáceis, como se percebe. Será que daqui a um ano poderei celebrar a conquista de todas?

Veremos.

Aos amigos leitores, desejo um 2015 repleto de boas leituras. Percamo-nos todos nos caminhos da melhor literatura.

=)


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Memorias de um wing derecho (de Roberto Fontanarrosa)

Nome de peso nas letras argentinas, Roberto Fontanarrosa foi, além de escritor, um aclamado cartunista.

Inodoro Pereyra

Há algumas semanas encerrei a leitura de “Puro fútbol”, obra na qual a Editora Planeta reúne todos os seus contos sobres nosso esporte favorito. Um desses contos ganhou destaque recentemente: “Memorias de um wing derecho” inspirou a animação “Futbolin” (no Brasil: “Um time show de bola”), do diretor Juan José Campanella.

Encontrei a íntegra desse conto no site da Prefeitura de Rosário, cidade natal de Fontanarrosa. O trabalho pode ser conferido no link abaixo:

memorias-de-un-wing-derecho

Outro conto que merece destaque é “19 de diciembre de 1971”. Há um vídeo com a leitura do conto no Youtube:

Espero que gostem. Abraços e boas leituras!


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O apocalipse dos trabalhadores

É impossível não se apaixonar pelo trabalho de valter hugo mãe. Os cuidados com a escrita, com a estética e com o ritmo colocam-no ao lado dos grandes escritores da língua portuguesa. E não é só. Em suas linhas, para além da linguagem, aspira-se uma incrível pureza e uma rara sensibilidade.

apocalipse

“O apocalipse dos trabalhadores” é o quinto livro que leio deste autor que, desde a segunda obra, figura entre os meus favoritos.

O livro conta a história de Quitéria e Maria das Graças, duas amigas que sonham com o futuro, enquanto enfrentam uma dura (e dupla) rotina de trabalho, como empregadas domésticas e como carpideiras, prestando homenagens em velórios.

Maria das Graças, casada, mantém um caso com seu patrão, o senhor Ferreira, e sente-se confusa em relação a seus sentimentos. Crê que o ama; mas, estranhamente, imagina-o como seu futuro assassino. Quitéria, por sua vez, leva uma vida de promiscuidade, até que encontra Andriy, um triste jovem ucraniano que sofre com o passado e com a distância de sua família.

O livro é sensacional. A história das duas mulheres é apenas um pretexto para o seu verdadeiro pano de fundo: o retrato sofrido da classe trabalhadora, de sua vida simples, de sua faina pesada, e de seus sonhos tão singelos quanto difíceis de conquistar. Os pontos altos são muitos, pedido destaque os diálogos imaginários de Maria das Graças com São Pedro e as metáforas protagonizadas pelo cachorro que atende pelo sugestivo nome de Portugal.

Eis alguns trechos:

“sete milhões de ucranianos morreram à fome nos anos trinta e dois e trinta e três do século vinte, e a ekaterina sentava-se à sua mesa como aterrorizada com a falta de sopa por um dia que fosse. para si, a fome era algo que a observava de perto, como se estivesse à espera de uma distração para a abater. a grande fome ucraniana sentava-se todo dia à mesa da ekaterina e do sasha, que ficavam a gerir as sopas, mesmo as mais fartas, com o compromisso de quem, mais tarde ou mais cedo, não teria o que comer. era o século vinte todo em cima de suas cabeças. os sete milhões de mortos à fome, os sete milhões de mortos na segunda guerra mundial, e os mortos mais os afetados pela catástrofe de chernobil. na cozinha dos Shevchenko sentavam-se mais de catorze milhões de mortos a olhar para os pratos de sopa”. (p. 65)

“sossega, graça, sossega. nunca mais falamos de mortos. juro-te. temos de fazer um acordo entre as duas para não chamar-mos a morte para a nossa beira. como achas que isso se faz, perguntou a maria da graça. começamos a gostar mais de viver. não tenho trabalho, quitéria, fiquei sem trabalho. são quatro da manhã, mulher, a esta hora ninguém tem trabalho. preocupa-te com isso a horas de jeito. vou comer sopa para a tua casa. todos os dias. e ainda comes uns bifes de peru, que não sou ninguém de te fechar o frigorífico, amiga. não consigo dormir. nem eu. acende a luz. deixa-me ficar a olhar para o teto. daqui a pouco cansas-te e dormes. fala comigo, diz-me coisas diferentes. fala-me de coisas que pareçam ontem. ontem é que estávamos bem”. (p. 77)

“o são Pedro tinha a voz da agente quental e a maria da graça estava irritada. não me incomode, estou farta de para aqui vir e você nunca me atende. isto é o quê. pagamos todos esta porcaria e tenho meus votos em dia, não hão de ver-me aqui eternamente. não era seguramente uma repartição pública, ou seria. ela pensava duas vezes, claro que havia de ser público tudo aquilo, construído à custa de todas as almas. o céu, obviamente, tinha de obedecer a uma democracia perfeita, preparada para absorver toda a gente e encaminhar até os mais aparentemente imprestáveis. o que seria daquilo se toda as pessoas rebelassem e exigissem um melhor tratamento. até às almas tem de ser conferido o direito ao protesto, que estar-se morto não é sinal de imbecilidade, pensava ela, é claro que estar morto é ainda pensar, pensar mais, porque tudo se decide para sempre, não se pode brincar com uma coisa assim”. (p. 115-16).


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Novo livro de valter hugo mãe

Eis uma ótima notícia para os fãs de valter hugo mãe: a edição brasileira de “A desumanização”, último romance do  autor português, será lançada ainda esta semana, no dia 10 de abril. A obra sai pela Cosac Naify, e custará cerca de R$35,00.

Ambientada na Islândia, a história é contada pela voz de uma menina diferente, que nos narra o que sobra depois de perder sua irmã gêmea.

«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»

Como curiosidade, deixo aqui as capas das edições brasileira e portuguesa:

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Edição portuguesa (Porto Editora)

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Edição brasileira (CosacNaify)

 

Deixo também um excerto:

 

Desde que foi lançado em Portugal, em setembro do ano passado, este livro ocupava o primeiro lugar da minha lista de desejos.

 Acabo de adquirir o meu exemplar. E você? Acompanha-me na melhor literatura?