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El delirio de Turing

Mês passado estive em Buenos Aires e saí em busca de novos autores. Percorrendo as estantes da Librería El Ateneo, deparei-me com um volume de “El delírio de Turing”, do boliviano Edmundo Paz Soldán. Na contracapa, um comentário de peso: Mario Vargas Llosa afirmando-o “um dos melhores autores da nova geração”; na epígrafe, um longo e belo excerto de “La biblioteca de Babel”, de Jorge Luís Borges, além de um trecho de Henrique V, de Shakeaspeare, e uma frase de Neal Stephenson, em “Snow crash” que melhor define o tema romance: “All information looks like noise until you brake the code”. Pronto. Bastou para leva-lo. E não me arrependi.

"El delírio de Turing" (Edmundo Paz Soldán / Alfaguara)

“El delírio de Turing” (Edmundo Paz Soldán / Alfaguara)

Trata-se de um extraordinário romance futurista com embasamento social, no melhor estilo de “1984”, de George Orwell. Río Fugitivo – cidade imaginária da Bolívia de Soldán – encontra-se em uma semana decisiva, marcada por uma revolta popular contra o aumento das tarifas após a privatização de sua companhia de fornecimento de energia. A ruas estão tomadas pelos manifestantes e a polícia reage de forma violenta. Ao mesmo tempo, as tradicionais manifestações de rua somam-se a uma nova forma de protesto: a guerra eletrônica, levada a cabo por hackers que confrontam o poder estabelecido a partir da disseminação de vírus de computador.

Em meio à convulsão social, cruzam-se os destinos de vários personagens: Kandisky, o misterioso líder dos hackers, responsável pela onda de ataques virtuais sofridas pelos sites do governo; Albert, figura chave da antiga ditadura, como fundador da Câmara Negra, organismo de inteligência e de segurança do Estado; Cardona, um juiz, ex-ministro de Justiça da Bolívia em busca de justiça (ou de vingança?) a respeito de fatos ocorridos durante a ditadura; e Miguel Sáenz, conhecido como Turing, o mais famoso criptoanalista da Câmara Negra, que começa a suspeitar que sua trabalho durante a ditadura não foi tão inocente quanto acreditava.

A obra é incrivelmente interessante: é muito bem montada e escrita; as várias tramas (e subtramas) casam-se perfeitamente; e o enredo, com a exposição de ideologias e atos de revolução e contrarrevolução, é bastante rico (e diferente). Tudo isso proporciona uma leitura fluida, rápida e bastante divertida. Em resumo, o livro é absolutamente recomendável! Já estou à procura de outras obras do mesmo autor…

Eis alguns trechos:

“- Quizás te han elegido para algo. ¿Que decía el mensaje?

– Que soy um asesino. Que tengo las manos manchadas de sangre.

– Si no lo eres, no tienes de que preocuparte.

Ese tono… Cuando Montenegro volvió al poder, te pidió que renunciaras. Pese a que había retornado por la vía democrática, nunca había dejado de ver a Montenegro como lo que alguna vez fue: um patético dictador. Y nunca había podido separar, como tú, el trabajo de los fines que se habían conseguido con éste: la defensa de gobiernos de dudoso corte moral. Tan escrupulosa ella, tan atenta a cuestiones éticas, que varias veces había amenazado con dejarte si no renunciabas a tu trabajo; y sin embargo, era débil: no le habías: no le habías hecho caso y seguia a tu lado.

– No me preocupo – dices, algo ofuscado. – Nunca disparé a nadie. Nunca toque a nadie siquiera. Nunca salí de mi oficina.

– El argumento de siempre. Sólo el que aprieta el gatillo es el criminal”. (p. 103)

“<<No crees em nada con convicción, Miguel. ¿Creerás em Dios, al menos?>> <<Hay um orden detrás del caos>>, la respuesta muy pensada. <<Hay un sentido detrás del azar. Nuestra misión es buscar el orden y el sentido. Si ambas palabras son sinónimos de Dios, entonces creo en él. Mejor dicho, creo en la posibilidad de que algún día se lo puede encontrar. Pero no me pidas buscarlo en una iglesia>>.” (p. 106)

“La labor de Kandisnky, junto a unos otros cuantos activistas, sería la de lograr que el vendaval de descontento saliera a la superficie.” (p. 186)

“Vano afán: en el país con el récord mundial de los golpes de Estado, la ley era un fantoche que se mandaba a la hoguera con una frecuencia de escândalo” (p. 233)

 


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Os predadores

O angolano Pepetela (pseudônimo de Artur Carlos Pestana dos Santos) é um dos mais respeitados escritores africanos da atualidade. Já publicou cerca de 20 romances e, pelo conjunto da obra, faturou o Prêmio Camões (1997).

Creio já haver lido 6 ou 7 de suas obras; “Predadores” é a minha preferida.

predadores

Sua história é embalada pela avalanche de frustrações experimentadas pela “geração da utopia”. Em uma Angola sofrida, Vladimiro Caposso encontra na corrupção política um atalho para se livrar de um passado miserável: fingindo ser quem não é (revolucionário, religioso ou o que mais o momento exija) adentra e cresce no aparelho estatal e, de mentira em mentira, acumula dinheiro e influência até transformar-se em um poderoso empresário

No outro vértice da pirâmide social, os excluídos são materializados na figura de Kaseke, um garoto pobre que corre as ruas de Luanda a vender pilhas para não morrer de fome, e cujo destino cruzará o de Nacib, um engenheiro que venceu na vida pelo esforço e que não esquece seu povo e suas raízes.

Com refinado senso de ironia e de humor, Pepetela apresenta um belíssimo romance social (na proposta) e humano (na essência). Em uma palavra: um livro imperdível.

Ofereço-lhes alguns trechos:

“Qualquer leitor habituado a ler mais que um livro por década pensou neste momento, pronto, lá vamos ter um flashback para nos explicar de onde vem este Vladimiro Caposso e como chegou até o que é hoje. Desenganem-se, haverá explicações, que remédio, mas não agora, tenho fôlego para mais umas páginas sem voltas atrás na estória, a tentar a História. E desde já previno, este não é um livro policial, embora trate de uns tantos filhos de puta” (p. 21 – negritei).

“Apesar de tudo, a família de Bebiana se mobilizou para esclarecer os mambos, abriu as orelhas, foi fazendo perguntas pelo bairro e mais tarde uma vizinha confirmou, ela também tinha visto Vladimiro com a Zefa em grandes conversas na porta da casa dela, pareciam íntimos acabados de sair da cama, juro sangue de Cristo. Para a sogra e cunhadas não havia lugar para dúvidas, palavra de vizinha é mais verdade que versículo da Bíblia”. (p. 104)

 

 


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O apocalipse dos trabalhadores

É impossível não se apaixonar pelo trabalho de valter hugo mãe. Os cuidados com a escrita, com a estética e com o ritmo colocam-no ao lado dos grandes escritores da língua portuguesa. E não é só. Em suas linhas, para além da linguagem, aspira-se uma incrível pureza e uma rara sensibilidade.

apocalipse

“O apocalipse dos trabalhadores” é o quinto livro que leio deste autor que, desde a segunda obra, figura entre os meus favoritos.

O livro conta a história de Quitéria e Maria das Graças, duas amigas que sonham com o futuro, enquanto enfrentam uma dura (e dupla) rotina de trabalho, como empregadas domésticas e como carpideiras, prestando homenagens em velórios.

Maria das Graças, casada, mantém um caso com seu patrão, o senhor Ferreira, e sente-se confusa em relação a seus sentimentos. Crê que o ama; mas, estranhamente, imagina-o como seu futuro assassino. Quitéria, por sua vez, leva uma vida de promiscuidade, até que encontra Andriy, um triste jovem ucraniano que sofre com o passado e com a distância de sua família.

O livro é sensacional. A história das duas mulheres é apenas um pretexto para o seu verdadeiro pano de fundo: o retrato sofrido da classe trabalhadora, de sua vida simples, de sua faina pesada, e de seus sonhos tão singelos quanto difíceis de conquistar. Os pontos altos são muitos, pedido destaque os diálogos imaginários de Maria das Graças com São Pedro e as metáforas protagonizadas pelo cachorro que atende pelo sugestivo nome de Portugal.

Eis alguns trechos:

“sete milhões de ucranianos morreram à fome nos anos trinta e dois e trinta e três do século vinte, e a ekaterina sentava-se à sua mesa como aterrorizada com a falta de sopa por um dia que fosse. para si, a fome era algo que a observava de perto, como se estivesse à espera de uma distração para a abater. a grande fome ucraniana sentava-se todo dia à mesa da ekaterina e do sasha, que ficavam a gerir as sopas, mesmo as mais fartas, com o compromisso de quem, mais tarde ou mais cedo, não teria o que comer. era o século vinte todo em cima de suas cabeças. os sete milhões de mortos à fome, os sete milhões de mortos na segunda guerra mundial, e os mortos mais os afetados pela catástrofe de chernobil. na cozinha dos Shevchenko sentavam-se mais de catorze milhões de mortos a olhar para os pratos de sopa”. (p. 65)

“sossega, graça, sossega. nunca mais falamos de mortos. juro-te. temos de fazer um acordo entre as duas para não chamar-mos a morte para a nossa beira. como achas que isso se faz, perguntou a maria da graça. começamos a gostar mais de viver. não tenho trabalho, quitéria, fiquei sem trabalho. são quatro da manhã, mulher, a esta hora ninguém tem trabalho. preocupa-te com isso a horas de jeito. vou comer sopa para a tua casa. todos os dias. e ainda comes uns bifes de peru, que não sou ninguém de te fechar o frigorífico, amiga. não consigo dormir. nem eu. acende a luz. deixa-me ficar a olhar para o teto. daqui a pouco cansas-te e dormes. fala comigo, diz-me coisas diferentes. fala-me de coisas que pareçam ontem. ontem é que estávamos bem”. (p. 77)

“o são Pedro tinha a voz da agente quental e a maria da graça estava irritada. não me incomode, estou farta de para aqui vir e você nunca me atende. isto é o quê. pagamos todos esta porcaria e tenho meus votos em dia, não hão de ver-me aqui eternamente. não era seguramente uma repartição pública, ou seria. ela pensava duas vezes, claro que havia de ser público tudo aquilo, construído à custa de todas as almas. o céu, obviamente, tinha de obedecer a uma democracia perfeita, preparada para absorver toda a gente e encaminhar até os mais aparentemente imprestáveis. o que seria daquilo se toda as pessoas rebelassem e exigissem um melhor tratamento. até às almas tem de ser conferido o direito ao protesto, que estar-se morto não é sinal de imbecilidade, pensava ela, é claro que estar morto é ainda pensar, pensar mais, porque tudo se decide para sempre, não se pode brincar com uma coisa assim”. (p. 115-16).