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Nós, os do Makulusu (José Luandino Vieira)

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Nós os do Makulusu

Esta semana encerrei a leitura de “Nós, os do Makulusu”, obra-prima do escritor angolano José Luandino Vieira, tido como um dos maiores expoentes da literatura africana. É, de fato, um baita livro, daqueles que você termina já sabendo que, no futuro, voltará a passear por suas páginas… Além da contundência do enredo – e da beleza da linguagem -, a obra impressiona por um fato curioso: foi escrita em apenas uma semana (!), enquanto Vieira padecia no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, entre 16 e 23 de abril de 1967 (assim como Pepetela, Luandino Vieira combateu nas fileiras do Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA).

A história, que avança e retrocede no tempo, gira em torno de uma família de portugueses brancos, que habita a Angola nos tempos da ocupação portuguesa. O romance constrói-se a partir das lembranças do Mais-Velho, que se encontra no velório de seu irmão mais novo, o Maninho, morto em combate. Ainda importante para o seu desenvolvimento é a presença constante de memórias em torno do pai, igualmente ausente.

Não encontrei publicações impressas desse grande romance aqui no Brasil (em Portugal ele saiu pelas editoras 70 e Caminho); de qualquer forma, versões digitais estão disponíveis no site da Saraiva e também no da Amazon, para quem utiliza o kindle. A propósito, na Amazon o livro está disponível para leitura gratuita aos assinantes do kindle unlimited.

Deixo abaixo a epígrafe da obra, assim como alguns excertos que me chamaram a atenção:

EPÍGRAFE:

Mukonda ku tuatundu kiá, tutena kumona-ku dingi kima. O kima tu-ki-sanga, kiala ku tuala mu ia. (Porque de onde viemos nada mais há para ver. O que procuramos está lá para onde vamos).

EXCERTOS:

“Isto, Mais-Velho, é que é difícil e tenho de o fazer: o capim do Makulusu secou em baixo do alcatrão e nós crescemos. E enquanto não podemos nos entender porque só um lado de nós cresceu, temos de nos matar uns aos outros: é a razão da nossa vida, a única forma que lhe posso dar, fraternalmente, de assumir a sua dignidade, a razão de viver – matar ou ser morto, de pé”.

“Quero rir, me sentir feliz, livre, despreocupado, Paizinho está ali, mas não posso: no seu rir e estar ali eu vejo, como Rute vai ver daqui a pouco no último passeio de barco na baía da nossa terra de Luanda, a morte de Maninho.

É a chorar e sem as flores na mão que a Igreja do Carmo me entra pelo corpo adentro”.

“[…] por isso, mãe, eu não quero ser enterrado, é uma palavra tão feia, tão fria, tão fosca, tão fresca; ou sepultado, outra, rima com abandonado, excomungado, capado e castrado, dominado e discriminado – escravizado! – essas todas palavras e suas rimas e sinónimos, todas têm silêncio e quietez e eu quero ser lançado no mar, então terei ao menos a ilusão de movimento, vou nascer outra vez embalado, baloiçado nas ondas todo o tempo e não vou ser pó, serei plâncton e vadiarei, vou andar no quilapanga por todas as praias do Mundo”.

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