Melhor Literatura

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Para sempre

drummond

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

(Carlos Drummond de Andrade)


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Poema à mãe

eugenio

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal…

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

(Eugénio de Andrade, In: “Os amantes sem dinheiro”)


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Sorteio (Todos os dias)

todos1

“É quando as pessoas saem que a casa se enche. Porque o silêncio é do tamanho das paredes da casa”.

Amigos leitores, esta semana sortearei um exemplar de um livro que eu gosto muito: “Todos os dias”, de  Jorge Reis-Sá, obra que foi eleita pela revista portuguesa Os Meus Livros um dos melhores romances do ano de 2006.

Para participar, é fácil: basta manifestar o interesse nos comentários deste post. Só vale um comentário por pessoa – mas para aqueles que se tornem seguidores do blog, o comentário valerá três chances no sorteio.

Boa sorte! E boa leitura!

 

 


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Novas aquisições (Flipoços 2014)

Ontem à noite fui ao Centro Cultural da Urca, a fim de garimpar pelos estandes do Festival Literário de Poços de Caldas/MG (Flipoços 2014). Em meio ao caos de livros espalhados sem nenhum critério, deparei-me com várias boas obras, a preços incrivelmente baixos. Escolhi três.

A primeira delas foi “Heróis demais”, da escritora colombiana Laura Restrepo.

restrepo

A autora chamou a minha atenção quando li seu romance mais célebre, intitulado “Delírio”. Dela, tenho ainda “Hot Sur”, que comprei em minha passagem em Buenos Aires e está na fila. É bastante provável que, pelo tema, “Heróis demais” seja lido primeiro. O enredo da obra mescla um duplo acerto de contas, político e familiar. Mateo, filho de uma jornalista que militou na argentina nos tempos da chamada “guerra suja” (nome pelo qual ficou conhecido o terrorismo de Estado promovido pela ditadura argentina na década de 1970),decide ir a Buenos Aires para encontrar o pai, um antigo dirigente trotskista que não participa da vida de seu filho. É um romance político que, ao que tudo indica, promete.

O segundo livro adquirido foi “A Suíte Elefanta”, do norte-americano Paulo Theroux.

elefanta

Theroux é um autor versátil, conhecido tanto por seus livros de ficção como por seus relatos de viagem. “A Suíte Elefanta” (que se enquadra no primeiro gênero) é composto por três novelas  ambientadas na Índia. São histórias destinadas a descontruir os lugares-comuns que envolvem o país, apresentando ao leitor uma Índia contemporânea presa entre o tumulto, a ambição e a espiritualidade. Em uma delas, lê-se: “A Índia era o mais próximo da vida e da morte que se podia chegar na Terra. Mas não era uma coisa ou outra: ali havia vida na morte e morte na vida”. Estou animado com a experiência. A obra parece bastante diferente do que, como leitor, estou habituado a consumir.

Deixei para o final o livro que me pareceu mais interessante: “A arte da ressurreição”, do chileno Hernán Rivera Letelier.

Capa da edição brasileira

Capa da edição brasileira

arte2

Capa da edição portuguesa

O romance é fruto de uma profunda investigação realizada pelo autor sobre um caso real. No início do século XX, um andarilho – Domingo Zárate Veja – começa a identificar formas apocalípticas nas nuvens e a acertar na previsão de pequenos desastres. Após a morte de sua mãe, converte-se num ermitão, e passa a vagar pelo vale de Elqui, onde acaba por concluir que ele nada mais é do que a reencarnação de Jesus Cristo. Ao saber da existência de uma prostituta que venera a Virgem do Carmo e que, ainda por cima, chama-se Magdalena, Zárate sai em sua busca, a fim de torná-la sua discípula – e sua amante.

Com esta obra, Letelier venceu o Prêmio Alfaguara de melhor romance, em 2011.  Não vejo a hora de descobrir este autor que, por ter sido comparado ao António Skármeta, pelo Clarín, já pressuponho grande.

Desejo a todos um final de semana repleto de boas leituras. Até!