Melhor Literatura

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Ler é fundamental

23 de abril é o Dia Internacional do Livro.

São poucos, porém, os brasileiros que celebram esta data. Em nosso país, barreiras econômicas e culturais separam do universo da leitura quase 80 milhões (!) de pessoas.

O quadro, já de si ruim, piora com a constatação de que o nosso já baixo número de leitores encontra-se em franco declínio: queda de 9,1%,  entre 2007 e 2011.

A média anual igualmente decresce: atualmente, o leitor brasileiro lê, em média, 4 livros por ano (em 2007, o índice era de 4,7). Para que se tenha uma ideia, a média portuguesa anda na casa de 8,5, e a espanhola encontra-se acima de 10; entre nossos vizinhos, a média chilena é de 5,4, ao passo que a argentina é de 4,6.

Vejo esses números com tristeza. E imagino que bom seria vermos no mundo as mudanças sonhadas na passagem abaixo:

“Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito, dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, pois fique sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que era o colesterol, e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adulto que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro. Por causa disso, quando lia, o pequeno Camilo sentia-se a tomar conta do corpo, como a limpar-se de coisas abstratas que o poderiam abater muito concretamente. Quando percebeu o jogo, o Camilo disse ao avô que havia de se notar na casa, a quem não lesse livros caía-lhe o teto em cima de podre. O velho Alfredo riu-se muito e respondeu: um bom livro, tem de ser um bom livro. Um bom livro em favor de um corpo sem problemas de colesterol e de uma casa com o teto seguro. Parecia uma ideia com muita justiça”.

(trecho de “O filho de mil homens”, de Valter Hugo Mãe. Ed. Cosac Naify, p. 68-69).

Feliz dia do livro!

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Lumbre (trecho)

Hernán Ronsino

Hernán Ronsino

“Faz tempo, na TV a cabo, vi fragmentos de um documentário. E o que vi me desenterrou – como um osso encrustado na terra – uma percepção, latente, amassada pelos anos mas nunca dita até este momento. Durante os dias seguintes esperei descobrir a repetição de imagens. Queria ver a totalidade do relato. Havia algo, ali, no tom e na paisagem, que me interpelava. Mas não tive sorte. Desde então cada vez que vejo televisão espero encontrar-me, outra vez, com esta história. Nunca pude saber o nome do documentário. Supõe-se que era do final dos anos 90. Porque falava de uma guerra civil, Croácia por exemplo. Portanto, estava frente a um punhado de imagens que mostravam um homem, o entrevistado, e uma câmera que o seguia em um passeio de carro por sua cidade natal. O homem viajava no assento traseiro, junto à janela. A noite aprofundava a deformação da paisagem: brotavam edifícios em ruínas, talvez por essa guerra de que falavam. Também podia ser na Rússia, alguma parte desmembrada da União Soviética. De vez em quando tratava de adivinhar o nome e a atividade do sujeito (um sobrevivente?). E o lugar. Por momentos pensava em alguma cidade da Rússia. Então o carro se deteve em uma esquina. A câmera mostrava o homem tentando acender um cigarro. Tentou duas vezes. Fazia a mão em concha para impedir que o vento apagasse o fogo. Mas não podia. Na terceira tentativa, conseguiu. E antes de que o carro arrancasse de novo, apenas, ao fundo, apareceu a silhueta de uma vaca, pastando, entre as ruínas de um edifício. Então o homem, em movimento, com a lembrança dessa vaca nos olhos, soltando uma baforada de fumaça, disse algo que eu li em letras brancas e à velocidade que passam as legendas; e que, apesar da fugacidade, gravei com a contundência do fogo: cada pedaço de parede desta cidade leva, como uma pele, as marcas da minha história”.

Excerto de “Lumbre”, romance de Hernán Ronsino (com tradução livre).


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El delirio de Turing

Mês passado estive em Buenos Aires e saí em busca de novos autores. Percorrendo as estantes da Librería El Ateneo, deparei-me com um volume de “El delírio de Turing”, do boliviano Edmundo Paz Soldán. Na contracapa, um comentário de peso: Mario Vargas Llosa afirmando-o “um dos melhores autores da nova geração”; na epígrafe, um longo e belo excerto de “La biblioteca de Babel”, de Jorge Luís Borges, além de um trecho de Henrique V, de Shakeaspeare, e uma frase de Neal Stephenson, em “Snow crash” que melhor define o tema romance: “All information looks like noise until you brake the code”. Pronto. Bastou para leva-lo. E não me arrependi.

"El delírio de Turing" (Edmundo Paz Soldán / Alfaguara)

“El delírio de Turing” (Edmundo Paz Soldán / Alfaguara)

Trata-se de um extraordinário romance futurista com embasamento social, no melhor estilo de “1984”, de George Orwell. Río Fugitivo – cidade imaginária da Bolívia de Soldán – encontra-se em uma semana decisiva, marcada por uma revolta popular contra o aumento das tarifas após a privatização de sua companhia de fornecimento de energia. A ruas estão tomadas pelos manifestantes e a polícia reage de forma violenta. Ao mesmo tempo, as tradicionais manifestações de rua somam-se a uma nova forma de protesto: a guerra eletrônica, levada a cabo por hackers que confrontam o poder estabelecido a partir da disseminação de vírus de computador.

Em meio à convulsão social, cruzam-se os destinos de vários personagens: Kandisky, o misterioso líder dos hackers, responsável pela onda de ataques virtuais sofridas pelos sites do governo; Albert, figura chave da antiga ditadura, como fundador da Câmara Negra, organismo de inteligência e de segurança do Estado; Cardona, um juiz, ex-ministro de Justiça da Bolívia em busca de justiça (ou de vingança?) a respeito de fatos ocorridos durante a ditadura; e Miguel Sáenz, conhecido como Turing, o mais famoso criptoanalista da Câmara Negra, que começa a suspeitar que sua trabalho durante a ditadura não foi tão inocente quanto acreditava.

A obra é incrivelmente interessante: é muito bem montada e escrita; as várias tramas (e subtramas) casam-se perfeitamente; e o enredo, com a exposição de ideologias e atos de revolução e contrarrevolução, é bastante rico (e diferente). Tudo isso proporciona uma leitura fluida, rápida e bastante divertida. Em resumo, o livro é absolutamente recomendável! Já estou à procura de outras obras do mesmo autor…

Eis alguns trechos:

“- Quizás te han elegido para algo. ¿Que decía el mensaje?

– Que soy um asesino. Que tengo las manos manchadas de sangre.

– Si no lo eres, no tienes de que preocuparte.

Ese tono… Cuando Montenegro volvió al poder, te pidió que renunciaras. Pese a que había retornado por la vía democrática, nunca había dejado de ver a Montenegro como lo que alguna vez fue: um patético dictador. Y nunca había podido separar, como tú, el trabajo de los fines que se habían conseguido con éste: la defensa de gobiernos de dudoso corte moral. Tan escrupulosa ella, tan atenta a cuestiones éticas, que varias veces había amenazado con dejarte si no renunciabas a tu trabajo; y sin embargo, era débil: no le habías: no le habías hecho caso y seguia a tu lado.

– No me preocupo – dices, algo ofuscado. – Nunca disparé a nadie. Nunca toque a nadie siquiera. Nunca salí de mi oficina.

– El argumento de siempre. Sólo el que aprieta el gatillo es el criminal”. (p. 103)

“<<No crees em nada con convicción, Miguel. ¿Creerás em Dios, al menos?>> <<Hay um orden detrás del caos>>, la respuesta muy pensada. <<Hay un sentido detrás del azar. Nuestra misión es buscar el orden y el sentido. Si ambas palabras son sinónimos de Dios, entonces creo en él. Mejor dicho, creo en la posibilidad de que algún día se lo puede encontrar. Pero no me pidas buscarlo en una iglesia>>.” (p. 106)

“La labor de Kandisnky, junto a unos otros cuantos activistas, sería la de lograr que el vendaval de descontento saliera a la superficie.” (p. 186)

“Vano afán: en el país con el récord mundial de los golpes de Estado, la ley era un fantoche que se mandaba a la hoguera con una frecuencia de escândalo” (p. 233)

 


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O afogado mais bonito do mundo

Hoje o mundo amanheceu mais triste. Perdemos ontem um dos maiores escritores de todos os tempos, o colombiano Gabriel García Márquez.

Laureado com o Nobel de Literatura (1982), Gabo publicou cerca 30 livros, incluindo romances, volumes de contos e crônicas e a autobiografia “Viver para contar”. Seu último livro publicado a coletânea “Eu não vim fazer um discurso”, que reúne vários discursos realizados pelo autor, desde sua despedida das colegas de colégio até o seu aniversário de 80 anos.

Gabo

Gabo

García Márquez exerceu uma influência enorme em minha formação literária. Foi o primeiro autor de gabarito que descobri, lá pelos 15 anos: antes de ter minha própria biblioteca, valia-me do acervo da minha mãe, em que o Gabito certamente reinava.

Com o Gabo, a impressão que tenho é a de que ocorre algo semelhante com o que se passa com o Saramago. Os novos leitores costumam descobri-los por suas obras mais recentes, desconhecendo as que realmente os colocaram entre os grandes da literatura. Assim, no caso de Saramago, não é incomum que muita gente tenha lido o “Ensaio sobre a cegueira”, mas não o “Memorial do Convento” ou o “Levantado do chão”; no caso de García Márquez, sobre gente que já leu as “Memórias de minhas putas tristes”, mas “Cem anos de solidão”, “O amor nos tempos do cólera” e, principalmente, “Ninguém escreve ao coronel” ainda restam por descobrir.

Em minha opinião, a par das obras célebres ambos os autores lapidaram pérolas não tão conhecidas pelo grande público. Na obra de Saramago, “Todos os nomes” é meu livro favorito; no acervo de Gabo, é-me especial a coletânea “A incrível história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada”, obra que além do conto que lhe dá nome, apresenta trabalhos inesquecíveis, como “Um senhor muito velho com umas asas enormes” e este “O afogado mais bonito do mundo”, que lhes ofereço abaixo:

O AFOGADO MAIS BONITO DO MUNDO

Este é um momento especial para ler (ou reler) este conto. Assim como a Estevão, é hora de olharmos para o grande GGM e suspirarmos: “-Bendito seja Deus. É nosso!”


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Anna Kariênina

"Anna Kariênina" (Liev Tolstói) - Edição traduzida diretamente do russo (Cosac Naify)

O romance “Anna Kariênina”, de Liev Tolstói, é aberto com uma das frases mais célebres da história da literatura. O tom desta grande obra fica claro já a partir de suas linhas iniciais, como se vê:

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.

Tudo era confusão na casa dos Oblónski. A esposa ficara sabendo que o marido mantinha um caso com a ex-governanta francesa e lhe comunicara que não podia viver com ele sob o mesmo teto. Esta situação já durava três dias e era um tormento para os cônjuges, para todos os familiares e para os criados. Todos, familiares e criados, achavam que não fazia sentido morarem os dois juntos e que pessoas reunidas por acaso em qualquer hospedaria estariam mais ligadas entre si do que eles, os familiares e criados dos Oblónski. A esposa não saía de seus aposentos, o marido não parava em casa havia três dias. As crianças corriam por toda a casa, como que perdidas; a preceptora inglesa se desentendera com a governanta e escrevera um bilhete para uma colega, pedindo que procurasse um novo emprego para ela; o cozinheiro abandonara a casa no dia anterior, na hora do jantar; a ajudante de cozinha e o copeiro haviam pedido as contas”.

 

 


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Viver o imaginado

cordi

“I dream some nights of a funny sea,

as soft as a newly born baby

It cries for me pitifully!

And I dive for my child with a wildness in me,

and am so sweetly there received”

(Joanna Newson)

 

“Imaginar o inexistente é um ato de paixão pela vida, mas viver o imaginado requer um amor duradouro e, sobretudo, um compromisso” (Júpiter Irrisari)

Epígrafes de “Cordilheira”, de Daniel Galera).

 

 


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Os predadores

O angolano Pepetela (pseudônimo de Artur Carlos Pestana dos Santos) é um dos mais respeitados escritores africanos da atualidade. Já publicou cerca de 20 romances e, pelo conjunto da obra, faturou o Prêmio Camões (1997).

Creio já haver lido 6 ou 7 de suas obras; “Predadores” é a minha preferida.

predadores

Sua história é embalada pela avalanche de frustrações experimentadas pela “geração da utopia”. Em uma Angola sofrida, Vladimiro Caposso encontra na corrupção política um atalho para se livrar de um passado miserável: fingindo ser quem não é (revolucionário, religioso ou o que mais o momento exija) adentra e cresce no aparelho estatal e, de mentira em mentira, acumula dinheiro e influência até transformar-se em um poderoso empresário

No outro vértice da pirâmide social, os excluídos são materializados na figura de Kaseke, um garoto pobre que corre as ruas de Luanda a vender pilhas para não morrer de fome, e cujo destino cruzará o de Nacib, um engenheiro que venceu na vida pelo esforço e que não esquece seu povo e suas raízes.

Com refinado senso de ironia e de humor, Pepetela apresenta um belíssimo romance social (na proposta) e humano (na essência). Em uma palavra: um livro imperdível.

Ofereço-lhes alguns trechos:

“Qualquer leitor habituado a ler mais que um livro por década pensou neste momento, pronto, lá vamos ter um flashback para nos explicar de onde vem este Vladimiro Caposso e como chegou até o que é hoje. Desenganem-se, haverá explicações, que remédio, mas não agora, tenho fôlego para mais umas páginas sem voltas atrás na estória, a tentar a História. E desde já previno, este não é um livro policial, embora trate de uns tantos filhos de puta” (p. 21 – negritei).

“Apesar de tudo, a família de Bebiana se mobilizou para esclarecer os mambos, abriu as orelhas, foi fazendo perguntas pelo bairro e mais tarde uma vizinha confirmou, ela também tinha visto Vladimiro com a Zefa em grandes conversas na porta da casa dela, pareciam íntimos acabados de sair da cama, juro sangue de Cristo. Para a sogra e cunhadas não havia lugar para dúvidas, palavra de vizinha é mais verdade que versículo da Bíblia”. (p. 104)